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Um prato sem passaporte

Um prato sem passaporte

Existe um prato que nenhum povo inventou, mas que todos os povos chamam de seu. Ele tem diferentes nomes dependendo de onde você senta à mesa. Em Portugal, é o cozido à portuguesa, uma mistura de carnes, embutidos e couve numa panela que ferve desde o século XVII. Na Espanha, temos o cocido madrileño. Na França, o pot-au-feu. Na Itália, o bollito misto. A lista é longuíssima e logo abaixo separamos alguns outros cozidos para contar melhor a história. O que conecta todos eles não é a receita, mas  a lógica: pegar o que se tem, juntar tudo numa panela, e deixar o fogo fazer o resto.

Uma história que começa no Shabbat

Para entender de onde vem esse prato, é preciso viajar até a Idade Média e sentar à mesa de uma família judaica sefardita na Península Ibérica. A lei judaica proíbe cozinhar no Shabbat, o dia de descanso, do pôr do sol de sexta ao de sábado. A solução foi engenhosa: na sexta à tarde, colocava-se uma panela de grão-de-bico, carne e especiarias sobre as brasas ainda quentes. A panela ficava ali cozinhando lentamente. Quando o Shabbat terminava, o jantar estava pronto. 

O porco que entrou na panela por medo

Em 1492, os Reis Católicos expulsaram os judeus da Espanha. Muitos fugiram, outros ficaram, convertendo-se forçosamente ao cristianismo. Eram os conversos ou convertidos, e viviam sob a suspeita constante da Inquisição.

Comer porco tornou-se uma prova de fé. Um converso que evitasse o porco podia ser denunciado. Para se proteger, muitas famílias começaram a adicionar à panela de grão-de-bico aquilo que a Torah proibia: toucinho, chouriço, morcela, orelha de porco. Assim nasceu, ao menos em parte, o cocido madrileño, um prato que carrega perseguição religiosa, medo e adaptação. 

O único prato que o mundo inteiro conhece — só não sabe que é o mesmo

O que mais impressiona ao rastrear o cozido pelo mundo não é a semelhança das receitas, mas das razões. Em quase todo lugar, esse prato nasce da mesma necessidade: sobrevivência, às vezes religiosidade, e a sabedoria de fazer muito com pouco. 

No Marrocos, a harira é a sopa que quebra o jejum do Ramadã. Ao pôr do sol, quando as mesquitas anunciam o fim do dia, as famílias se sentam diante de uma tigela quente de grão-de-bico, lentilhas, tomate e especiarias. 

Na Índia, o Dal é feito com leguminosas partidas ao meio, lentilhas ou ervilhas. Daí vem seu nome, Dal, palavra derivada do sânscrito que significa “dividido”. Pesquisadores datam seu preparo entre 800 e 300 a.C., e registros em textos religiosos como o Yajurveda já o mencionam. Um bilhão de pessoas come alguma versão dessa sopa todo dia.

No Vietnã, o bò kho é um cozido de carne bovina com especiarias como gengibre, anis-estrelado, capim-limão, servido com pão baguete, arroz ou macarrão. E aqui está uma das mais inusitadas histórias da gastronomia: os vietnamitas adotaram a baguete durante a colonização francesa, entre 1858 e 1954, mas a transformaram completamente. E este pão virou o acompanhamento perfeito de um ensopado profundamente asiático. 

Na Ucrânia, o borscht é uma sopa de beterraba que virou questão de Estado. Há registros de sua existência desde os séculos XIV e XV, e a receita espalhou-se por toda a Europa Oriental - Polônia, Belarus, Romênia, Lituânia. Mas, em 2022, quando a Rússia publicou um post reivindicando o prato como “clássico da cozinha russa”, a Ucrânia reagiu: “Como se roubar a Crimeia não fosse suficiente, também tinham de nos roubar o borscht?”. A UNESCO declarou a versão ucraniana Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. 

No México, o pozole é um caldo de milho que os astecas consideravam sagrado. O milho, segundo o mito da criação do Popol Vuh, era a matéria com que os deuses fizeram o ser humano. O pozole era um prato cerimonial, consumido apenas por sacerdotes e governantes em rituais solares. Com a chegada dos espanhóis no século XVI, a carne ritual foi substituída por carne de porco — e o sagrado virou popular. Hoje o pozole é o prato das festas nacionais. 

E chegamos em casa. Aqui temos vários cozidos, como o cozido com mandioca, o mocotó e a dobradinha. Claro, temos o prato nacional por excelência, a feijoada. A narrativa popular diz que nasceu nas senzalas com as sobras que os senhores não queriam, porém, há quem conteste essa história. Segundo o historiador Luís da Câmara Cascudo, essa hipótese não procede, pois os portugueses não desprezavam essas partes do porco, e o que os escravizados comiam era basicamente feijão com farinha. 

A versão com mais respaldo acadêmico é que a feijoada é uma adaptação do cozido português lá do primeiro parágrafo. Há referências à feijoada como prato na imprensa do Rio de Janeiro a partir de 1833. 

Olhando para todos esses cozidos, vemos que a lógica é a mesma, mas o ingrediente de honra revela a cultura de um povo. No Marrocos, o grão-de-bico e as especiarias. Na Índia, as lentilhas e a cúrcuma. No Vietnã, o gengibre e o anis. No México, o milho sagrado. Na Ucrânia, a beterraba vermelha. Em Portugal, os embutidos defumados. Na Espanha, o porco que foi prova de fé. E sempre existe um caldo. 

Da próxima vez que alguém servir feijoada, cozido ou qualquer ensopado de família, você pode dizer: Você sabia que esse prato tem parentes em todos os continentes? 

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