Um bolinho que desperta lembranças, uma taça de absinto com champanhe, uma preferência declarada por creme de leite e um ritual de mastigação capaz de impacientar os companheiros de mesa. Entre páginas de romances e registros da vida cotidiana, a comida oferece um caminho curioso para conhecer Proust, Hemingway, Agatha Christie e Kafka. Virginia Woolf completa a conversa com uma observação que merece lugar à mesa: um bom jantar também pode fazer diferença na qualidade das ideias.
Comecemos pelo pequeno bolo que ganhou um lugar desproporcional ao seu tamanho na história da literatura: a madeleine.

Em No caminho de Swann, primeiro volume de Em busca do tempo perdido, o narrador prova um pedaço de madeleine embebido em chá e sente uma alegria cuja origem, de início, não consegue explicar. Aos poucos, reconhece o sabor dos domingos de infância em Combray, quando tia Léonie lhe oferecia o bolinho mergulhado em chá. A lembrança chega pelo paladar, antes que ele consiga alcançá-la pelo pensamento. A cena está na primeira parte do romance, “Combray”, seção I.
Embora tenha ficado conhecida como a “madeleine de Proust”, quem leva o bolo à boca é o narrador. Essa distinção preserva justamente o encanto da passagem: estamos diante de uma construção literária sobre algo muito familiar. Quem nunca encontrou um pedaço da infância no cheiro de um bolo saindo do forno?

Com Ernest Hemingway, passamos da xícara à taça. Em 1935, o escritor contribuiu com uma receita para uma coletânea de coquetéis assinados por autores. Sua combinação reunia absinto e champanhe e recebeu o mesmo nome de seu livro sobre touradas, publicado três anos antes: Morte à tarde. O registro consta do verbete dedicado à bebida no The Oxford Companion to Spirits & Cocktails.
Em Veneza, Hemingway esteve entre os clientes do Harry’s Bar, onde Giuseppe Cipriani criou o clássico Bellini, em 1948, drink combinando purê de pêssegos brancos com prosecco. A versão de que o coquetel teria sido criado especialmente para o escritor aparece em muitos relatos sobre a bebida, mas não há registro dessa dedicatória na história oficial publicada pela Cipriani. Nela, a criação nasce do gosto de Giuseppe pelos pêssegos brancos, e o nome homenageia o pintor veneziano Giovanni Bellini.
Agatha Christie oferece uma mudança de sabor. O site oficial da autora reproduz uma declaração de sua autobiografia na qual ela apresenta o creme de leite como sua preferência de sempre. Para quem associava seu nome apenas a venenos, suspeitos e álibis, é uma revelação doméstica bastante simpática.
Suas recordações também incluem mesas fartas. Em outro trecho autobiográfico reproduzido pelo mesmo site, Agatha conta que Jane, a cozinheira da casa, recebia amigos para o chá, servido com bolos, pãezinhos, scones e tortinhas de geleia. Antes dos interrogatórios de Poirot, havia toda uma vida acontecendo ao redor da chaleira.

Virginia Woolf levou a comida para o centro de uma discussão sobre literatura. No primeiro capítulo de Um teto todo seu, publicado em 1929, a narradora contrapõe duas refeições: um almoço farto, com linguado, perdizes e vinho, numa instituição masculina, e um jantar modesto numa faculdade feminina, com sopa, carne, verduras e ameixas com creme. A diferença entre os pratos revela a desigualdade de recursos e de oportunidades. É depois do jantar que aparece a frase: “Não se pode pensar bem, amar bem, dormir bem, se não se tiver jantado bem”, aqui em tradução livre do original.
A história teve uma continuação fora das páginas. Segundo os arquivos do Newnham College, uma das instituições que inspiraram o ensaio, as estudantes levaram os comentários de Woolf a sério. Num registro de 1930, anunciaram a criação de uma comissão de cozinha, na esperança de que uma boa omelete ajudasse a produzir bons poemas e ensaios. Uma resposta com humor e bastante senso prático, para alimentar as ideias, convinha também cuidar do jantar.

Kafka tinha suas próprias exigências. Adepto de uma alimentação vegetariana estrita, seguia o método de Horace Fletcher, que recomendava mastigar demoradamente os alimentos, até que se liquefizessem. Segundo uma análise de seus diários publicada na revista The New Yorker, o hábito irritava seus companheiros de mesa. Podemos imaginar que o jantar exigisse alguma paciência.
A ideia de um Kafka que “quase não comia”, porém, exige cuidado. Nos últimos meses de vida, em 1924, a tuberculose atingiu sua laringe e o impediu de comer e beber, conforme documenta o Museu Franz Kafka, em Praga. Esse sofrimento não deve ser confundido com uma simples excentricidade alimentar.
Entre a lembrança despertada por um bolinho e as ideias que ganham força depois de um bom jantar, a comida também participa das histórias que contamos. Talvez por isso um livro aberto, uma xícara de chá e uma fatia de bolo combinem tão bem: enquanto as páginas nos levam para longe, o sabor nos mantém perto de casa.
DICA
Para quem se interessou pelos livros dos autores citados, compartilhamos uma dica: no MEC Livros, você pode emprestar gratuitamente Um amor de Swann, de Marcel Proust, além de títulos de Franz Kafka e Virginia Woolf (com acesso pelo Gov.br). Já Um teto todo seu, de Virginia Woolf, está no catálogo digital da Biblioteca Unesp, com empréstimo sujeito às condições de acesso da instituição.